Como a História se lembrará de Donald Trump?

Foto: AP Photo/Evan Vucci

Esta é uma pergunta que tenho tentado responder nos últimos dias. Eu me lembro perfeitamente do dia em que ele foi eleito presidente: estávamos todos em uma festa, acreditando que se tratava apenas de uma piada e que, obviamente, ele nunca se tornaria presidente. A madrugada se tornou um pesadelo e muitos americanos choravam pelos cantos sem acreditar no resultado.

O tempo passou e, de uma maneira ou de outra, aquela política tacanha frutificou. Vimos o Brexit no Reino Unido, Bolsonaro no Brasil e uma onda de extrema direita varrer o planeta. As consequências disso são claras: xenofobia, racismo, nacionalismo, ressurgimento de uma religiosidade que deseja impor seus valores a todos. E a lista de aberrações poderia continuar.

Eu honestamente não acredito que Biden represente uma mudança significativa, mas é bom ter um fator quase que “moralizante” na política internacional. É como se esse resultado enviasse uma mensagem ao mundo de que não é possível fazer política virando as costas para a ciência, ignorando o contexto climático e suas catastróficas consequências e, acima de tudo, lembrando que é preciso cooperar com o outro na construção de um mundo melhor.

Não é um muro separando países que vai resolver os problemas de imigração e busca por refúgio. Não é negando a gravidade da Covid-19 que vamos eliminar a pandemia. Não é impondo preceitos religiosos que se governa para todos. Não existe cristofobia e o comunismo não é um fantasma aterrorizando o ‘mundo livre’. A lição que fica é de que é preciso prestar atenção às ideias que estão em jogo — e é preciso dar valor ao voto e ao exercício da democracia.

Precisaremos lidar com a desinformação, focar na educação do nosso povo que vota e que não consegue se dissociar de mentiras difundidas nas redes sociais. A Internet deixou há muito de ser terra de ninguém. Na verdade, enquanto votos eram exaustivamente contatos estado por estado no país mais poderoso do mundo, pouco se discutiu sobre aquele território invisível que influencia tremendamente o mundo contemporâneo. Pouco se falou sobre Facebook e Whatsapp.

Para o Brasil, a eleição de Biden envia uma mensagem clara de que é preciso corrigir a rota. Provavelmente estaremos isolados do mundo, seremos vistos como páreas que negam a ciência e não se importam com o meio ambiente. Já havíamos nos tornado piada do mundo e, agora, o governo perde seu único aliado. Note que o Brasil não buscou um país como aliado, como se faz na diplomacia tradicional, mas sim um presidente que estava premeditado a cair. Bolsonaro está sozinho à margem do mundo.

Eu não sei como os livros de História se lembrarão de Trump e Bolsonaro. Talvez seja muito cedo para ter uma resposta concreta. Mas certamente estes líderes serão vistos como produtos de um delírio, um pesadelo que, felizmente, passou. Eu espero que não haja lugar para esse tipo de líder no futuro. Espero que as décadas que virão tragam uma nova geração de políticos comprometidos com o bem-estar de todos, que respeitem a diversidade e que se comprometam a deixar para as gerações que estão por vir um planeta habitável e uma sociedade mais justa.

Brazilian journalist currently based in Lisbon, Portugal. I write mainly in Portuguese, sometimes in English.

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